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  • Vanessa Spanholi

Pensamento Dual e o Coletivo Construtivo

Quantas vezes você já saiu de uma reunião com a sensação de ter colaborado com mais um ritual de improdutividade coletiva? “Muito se fala, muito se discute, nada se define”. Ou, “mera comunicação do que já foi definido, sem nenhuma abertura para novos pontos de vista”… Essa sensação comum entre nós (você, eu e o Elon Musk), pode gerar desgastes desnecessários, mas principalmente prejuízos ao andamento de projetos importantes.


Já dissemos aqui que a inovação requer sincronia, ou seja, ela está fortemente ligada a fluxos de colaboração. Envolver pessoas diferentes, com pontos de vista, repertórios e mindsets diferentes, em prol de um propósito único para discutir, desconstruir, construir e entregar valor, pode ser uma dinâmica muito desafiadora. Mas uma dualidade básica do design thinking pode ajudar a explicar [e organizar] esse desafio.


Designer: Filho de uma artista e um engenheiro


Imagine um casal. Ela é artista, ele é engenheiro. Enquanto um pensa em fazer uma viagem super autêntica, imaginando as pessoas diferentes que irá conhecer, pratos típicos que poderá provar, o outro abre a planilha do excel, planeja o orçamento, verifica a melhor época para viajar, etc. Se, por um lado, temos um pensamento empático, sensível, criativo, por outro, temos um pensamento prático, racional, analítico. E por mais que cada um de nós se identifique mais com um desses lados, o casal “engenheiro e artista” mora dentro de nossas cabeças.


A prática do design [thinking] envolve a habilidade de identificar os momentos de ativar, de dar voz a cada um desses mindsets. Combina momentos de empatia e criatividade, quando é necessário ampliar a percepção e expandir as ideias, com momentos de definição, quando é necessário analisar requisitos e escolher caminhos. Esse processo de expansão (divergência) e contração (convergência) é como a respiração do designer.



Abertura — Movimento Divergente

No movimento de abertura, em que as pessoas criam ideias, elencam características, elaboram possibilidades, a velocidade, espontaneidade, intuição e criatividade estão a todo vapor. O coletivo é muito rico para esse tipo de atividade, a pluralidade de ideias faz com que o processo seja mais produtivo em menos tempo. Esse movimento é mais livre, não há tempo para discutir questões específicas, o pensamento crítico, deve ser deixado de lado.


Realizar esse movimento é fundamental para resolver qualquer desafio. Nos momentos de divergência que iremos nos aproximar das principais questões, entender contextos, coletar diferentes visões e explorar diversas possíveis soluções para os problemas.


Mas é comum, durante uma dinâmica de abertura, perceber alguém ansioso com a profusão de informações. Para aqueles que são mais voltados ao pensamento analítico, ou até mais introspectivos, pode ficar difícil surfar nessa onda junto ao grupo. Se antes, a questão parecia complexa, com essa dinâmica rock’n roll, ela pode parecer muito maior. Mas resista, pois é saudável que as dinâmicas de abertura sejam como uma explosão de ideias, com muita energia e pouca ordem, rápida e intensa.


Depois disso, é hora de virar a chave e começar a colocar ordem nessa loucura. É hora de buscar o movimento complementar: a convergência.


Fechamento — Movimento Convergente

O movimento de convergência costuma ser mais difícil para equipes e organizações. Convergir em grupo não é algo que fazemos naturalmente. Muitas vezes, para chegar ao objetivo, é necessário fazer uso de algumas ferramentas que colocam o grupo em sincronia.


Mas, independente do modo, da ferramenta, do método, o mais importante é que a palavra-chave para a convergência seja critério.

Sem critérios, as decisões do grupo normalmente são baseadas em visões individuais. Vozes com maior influência ganham peso. Sistemas de natureza hierárquica tendem a operar dessa forma.


Entender e concordar com quais serão os critérios, ou seja, as lentes da análise, é o primeiro passo para pôr ordem no volume de informações geradas em uma etapa de abertura. Os critérios são variáveis para as mais diversas situações e desafios: viabilidade, preço, esforço, impacto, prazo, importância, enfim… Elencar critérios e concordar com seus conceitos faz com que o pensamento analítico seja convocado na hora de escolher ideias ou analisar informações.


Possivelmente, aquela pessoa que ficou agoniada na atividade de abertura, agora se sentirá mais confortável. Atividades que envolvam votação (sempre individual) são adequadas para esse momento. Com a votação é possível dar “voz” a todos envolvidos de forma equilibrada, elencar prioridades, e tomar decisões coletivas para prosseguir com o processo.


Sinais e os fluxos do coletivo construtivo

Aprender a dirigir um carro não é simplesmente aprender a acelerar, muito menos a frear. Podemos considerar uma pessoa apta a conduzir um automóvel quando ela adquire a habilidade de identificar quando é necessário, acelerar e quando é necessário, frear, trocar de marcha, dar alerta, ter visão periférica, visão focada, até que chega um momento em que tudo fica automático.


Conduzir um coletivo construtivo é combinar movimentos para chegar a um objetivo, divergência e convergência, zoom in e zoom out, de diversas formas e várias vezes durante um processo complexo. O desafio é colocar todos para dançar no mesmo ritmo, sabendo que, em alguns momentos, uns estarão mais confortáveis com a natureza da dinâmica que outros, e vice-versa. Passar conceitos base de cada tipo de movimento, usar ferramentas como apoio, criar rituais e, especialmente, acolher a diversidade de pensamentos, de forma dirigida, fazem parte dessa linda jornada que começa com uma reunião produtiva e pode terminar com uma grande entrega.


Publicado originalmente em Medium/Sintese21 em 4 de fevereiro de 2019.

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