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  • Vanessa Spanholi

Inovação em estágios de maturação

Criar filhos e implementar a cultura de inovação em uma organização têm muito em comum, pode acreditar.


É na rotina do dia a dia que pais vão transferindo seus valores para seus filhos, de acordo com o amadurecimento das crianças. Seja através de conversas, exemplos ou experiências, aos poucos os filhos vão assimilando conceitos como ética, respeito, liberdade, autonomia, responsabilidades, etc. É difícil definir através de indicadores quantitativos se os pais estão tendo sucesso nessa difícil jornada de apoiar o desenvolvimento de um cidadão, afinal é algo muito mais amplo do que desempenho escolar. Mas, existem sinais que podem tranquilizar, ou até preocupar, pais e mães: Como o filho se relaciona com amigos, colegas, família e professores, se ele é querido pelos outros, se é muito vulnerável a qualquer ideia, qual sua reação a crises e dificuldades, e por aí vai… O mais interessante é que o amadurecimento vai transformando a relação da criança com seus pais; Se antes era necessário perguntar tudo para os professores, agora já é possível pedir para o próprio filho relatar algumas situações; Se antes era necessário pedir para ele ligar a cada duas horas da casa do amigo, agora já há confiança para que ligue somente quando for necessário. O amadurecimento faz com que as relações de controle sejam substituídas por relações de confiança, sem manual ou receitas, somente com experimentações. E, aos poucos, os pais voltam a ter horas de sono mais tranquilas (assim esperamos).


Acredito que a mesma lógica se aplica ao conduzir uma organização para dinâmicas mais sadias e propensas à inovação. É como se cada equipe, ou cada organização, estivesse em um estágio e precisasse caminhar alguns passos para o amadurecimento. Sim, se estamos falando de disrupção, de quebrar barreiras, estamos falando (também) de assumir alguns riscos. Se estamos tentando ser mais ágeis, necessariamente, temos que buscar mais autonomia. Se estamos atacando as burocracias excessivas, talvez seja importante entender quais mecanismos de controle e poder essas dinâmicas estão atendendo. Se queremos equipes mais colaborativas, será necessário superar as fatídicas barreiras do ego e o mindset da autoria, da assinatura, do rockstar. Será necessário engavetar [de vez] a imagem do bicho-papão, líder distante e categórico nas punições. Será necessário largar as explicações do “é assim, por que sim” ou “é assim, porque sempre foi assim”, e abrir espaço para os questionamentos, sem medo, compreendendo que eles não são ameaçadores e podem ser produtivos — especialmente se forem bem direcionados.


Assim como não há manual ou receita para que pais criem filhos decentes, éticos, gente boa, e do mesmo jeito que o boletim não é indicador para avaliar valores, o que torna uma empresa inovadora? Inovação corporativa é como uma jornada. Uma vez que se tem consciência do estágio de maturidade de um grupo, é possível entender quais conceitos devem ser assimilados. E à medida que os conceitos são absorvidos, se cristalizam nas dinâmicas da organização, sem falhar em momentos de crise. Novos conceitos virão, e a caminhada segue, com mais relações de confiança, com cada vez mais autonomia e coragem para responder às adversidades. A notícia é que não há estágio final, não há marco definitivo, não há prêmio que indique que o objetivo foi cumprido. Na realidade, a perenidade da organização depende disso. Só não vê quem não quer.


Publicado originalmente em Medium/Sintese21 em 12 de agosto de 2018


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